Amar é reconhecer??
"Reconhecer,
no sentido de quem se conhece duas vezes.
Por fora. E por dentro.
Reconhecer
Reconhecer
como forma de nos reconhecermos,
insaciavelmente, em alguém que faz parte de nós.
Reconhecer
como uma estranheza que se esclarece,
sempre que alguém precioso nos reconhece,
mesmo quando não sabemos quem somos.
É reconhecer de gratidão:
pelos gestos de reconhecimento que se trocam quando se ama.
Reconhecermo-nos em alguém...desabafa-nos.
Isto é,
alivia a angústia de estarmos abafados nas dúvidas
com que se constrói a nossa solidão.
E de cada vez que alguém se reconhece em nós...transforma-nos.
Olha para além de nós; olha por nós.
Sem que isso sobreponha o seu olhar ao nosso.
Talvez amar seja, realmente, reconhecer.
E será por isso que,
quando olhamos para o nosso coração, nos doa sempre um bocadinho?
Porque, talvez sobrem as pessoas que olham para nós,
e nos achem complicados...
com o tempo,
parecem tornar-se quase nenhumas,
as pessoas que olham por nós...e nos reconhecem.
As miragens são todas aquelas pessoas que,
sempre que as imaginávamos capazes de nos tornarem mais simples
e mais compreensíveis, nos decepcionam.
É por isso que as miragens nunca acontecem por influência da luz do sol,
quando o olhamos de frente.
Só muito tarde descobrimos que as miragens nascem e crescem presas às pessoas que,
em vez de janelas de simplicidade,
criam labirintos no nosso coração.
E nos levam a reparar,
sempre que olhamos para trás, que - em vez de transparência - surge opacidade.
Uma miragem é tudo aquilo que,
Uma miragem é tudo aquilo que,
no lugar de pessoas luminosas,
cresce sob a forma de vultos,
de penumbras,
e com um insustentável sentimento de estranheza.
Porque, com a ilusão de haver quem nos conheça,
as miragens dão-nos quase tudo o que nos faz falta.
Menos o que só o amor e o reconhecimento transformam numa janela de simplicidade."
Eduardo Sá

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