segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Quem sou?

"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é.
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu."

(Fernando Pessoa)
"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo."
Criamos pseudo-almas, máscaras teatrais que nos permitem representar a vida. Máscaras que não somos nós. Que nos fazem sentir a superficie das ondas e não a profundidade do abismo. Mas é nessa profundidade que devemos entrar e perceber. Devemos compreender a circularidade do remoinho da nossa vida. De onde veio... para onde se dirige.....
Às vezes é preciso parar para consultar o mapa da nossa racionalidade...

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